A autora de A Casa dos Espíritos: Isabel Allende
O pai de Isabel Allende era primo do presidente da República do Chile, Salvador Allende. O presidente morreu em 1973, no mesmo ano em que os militares iniciaram uma ditadura no país liderada por Augusto Pinochet. A ditadura durou até 1990.
O romance A Casa dos Espíritos e a ditadura militar no Chile
A Casa dos Espíritos é um romance sobre a família Del Valle publicado em 1982 e fala também sobre a ditadura militar no Chile, que acabou apenas em 1990.
Para nós, brasileiros, a leitura sobre essa ditadura lembra muito a história da ditadura militar no Brasil, que durou entre 1964 e 1985.

Del Valle é uma família de classe alta num país que não é chamado de Chile, mas que claramente parecer ser o Chile. O livro foi publicado durante a ditadura e, por isso, foi publicado inicialmente apenas no exterior – na Argentina e na Espanha. A ditadura militar na Argentina acabou em 1983.
Assim como o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai, o Chile enfrentou um processo muito semelhante de perseguições, torturas e desaparecimentos causados por um governo anti-democrático. O surgimento desse governo não foi totalmente espontâneo, mas financiado por interesses externos ao país. O medo do comunismo foi o principal alicerce usado para justificar o início dessas ditaduras, com o argumento de que seria um governo temporário até a reabertura.
Incrivelmente ainda há, hoje (em 2026), quem defenda as ditaduras militares e quem tente trocar seus nomes para “governo militar” ou “regime militar”, apesar de ser impossível negar que tenham sido ditaduras.
Como romance histórico familiar que é, A Casa dos Espíritos percorre várias gerações e o clima muda completamente: antes e depois do golpe militar. Passamos de um mundo de sonho e de poucos problemas para o mundo absurdo e injusto da perda dos direitos individuais.
Isabel denuncia a ditadura chamando a atenção para a reviravolta contra o povo como um todo – aqueles que se consideram conservadores também perdem os seus direitos quando eles não são garantidos a todos.
Inspirações na escrita de A Casa dos Espíritos
O início da leitura de A Casa dos Espíritos me incomodou pela semelhança extrema com um livro que é um dos meus preferidos: Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, publicado cerca de 20 anos antes. Mas a escrita da autora se desenvolve ao longo do texto. A Casa dos Espíritos é o primeiro livro publicado pela autora, que até hoje publica livros (o último publicado foi em 2025): Meu nome é Emilia Del Valle.


Pessoas reais que inspiraram personagens de A Casa dos Espíritos:
Não podemos dizer que o livro A Casa dos Espíritos é autobiográfico, mas a partir do momento em que a ditadura militar toma conta da narrativa percebemos que tem muito de uma história real. Cada personagem representa, de fato, alguém que existiu na vida de Isabel, inclusive a própria Isabel.
Um dos personagens do livro, chamado apenas de “Poeta” é atribuído ao escritor e poeta Pablo Neruda, que era amigo da família de Isabel Allende. Além disso, a própria autora e sua mãe e avó também inspiraram a criação de personagens.
O avô de Isabel Allende inspirou a criação de Esteban Trueba, avô de Alba, por exemplo. Alba, portanto, seria inspirada na própria Isabel.
O ditador representa Augusto Pinochet.
Por que A Casa dos Espíritos me surpreendeu:
Antes de ler A Casa dos Espíritos já tinha escutado muitos elogios e quase nenhuma crítica ao livro.
O realismo mágico é a característica mais citada pelos leitores, lembrando o clássico Cem Anos de Solidão do vencedor do prêmio Nobel de literatura, Gabriel García Marquez.
No início da leitura de A Casa dos Espíritos é impossível não perceber a semelhança entre esses dois livros. A impressão que fica é a de uma tentativa não escondida de criar uma história parecida: a história de membros de uma família ao longo das gerações (romance transgeracional), o uso dos nomes familiares repetidos (em Cem Anos de Solidão a impressão é de que todos os homens são Aurelianos), a alusão a eventos futuros para despertar curiosidade, os parentes místicos e seus cadernos ou livros mágicos.
Com o desenvolver da narrativa, o livro muda completamente de tom: a ditadura militar traz um tom extremamente realista e real de um momento histórico que existiu de fato.
Esse componente político também existe em Cem Anos de Solidão. O livro denuncia a exploração imperialista e o Massacre das Bananeiras, que foi uma repressão e assassinato de aconteceu na Colômbia em 1928 contra milhares trabalhadores grevistas da United Fruit Company.
A trilogia A Casa dos Espíritos
A Casa dos Espíritos foi escrito antes dos outros dois livros da trilogia, embora cronologicamente estes 2 narrem eventos anteriores aos d’A Casa dos Espíritos.



Tenho curiosidade em ler mais livros da autora para ver como a escrita dela se desenvolveu (A Casa dos Espíritos foi o primeiro livro publicado dela). Você me indica algum?
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