Capa do livro Pachinko de Min Jin Lee

Aprendizados sobre a Coreia e o Japão lendo Pachinko

Pachinko é um livro de 2017 que conta a história de várias gerações de uma família e de suas vidas repletas de romances realistas. O livro Pachinko foi adaptado no formado de série (dorama) pela Apple TV+ e disponível também no Prime Video (da Amazon).

O romance conta a história de várias gerações de uma família coreana ao longo do século XX. A família, assim como muitas outras, precisa migrar para o Japão no contexto da devastação da Coreia causada pela guerra e pela colonização/indexação da Coreia pelo Japão.

A autora, Min Jin Lee, nasceu na Coreia e aos 7 anos se mudou para New York. Na Universidade de Yale fez licenciatura em história. É cristã batista. Toda a história dos personagens de Pachinko tem o pano de fundo da história da Coreia e do Japão no século XX. Podemos dizer que é um romance histórico, de certa forma.

Pachinko é o tipo de livro que dá saudade dos personagens ao final da história.

Capa do livro Pachinko em azul na edição brasileira da editora Intrínseca mostrando mulher com roupa típica coreana na qual se vê montanhas asiáticas, um sol e  uma família composta por uma mulher e 2 crianças

Curiosidades históricas sobre a Coreia e o Japão (linha do tempo):

O Japão colonizou a Coreia entre 1910 e 1945.

Em 1º de março de 1919 houve o chamado Movimento Primeiro de Março na Coreia. Esse movimento foi um protesto pacífico contra o domínio japonês na Coreia e é um evento histórico citado em Pachinko. Milhares de ativistas foram presos, torturados, obrigados a assinar uma confissão e condenados à morte pelo governo japonês. O governo japonês criou impostos exorbitantes que comprometiam a renda dos coreanos, aumentando a miséria e a fome entre o povo coreano.

Em 1939 começou a Segunda Guerra Mundial, da qual o Japão fez parte (aliando-se à Alemanha nazista e à Itália fascista).

Em Pachinko os personagens principais são imigrantes coreanos vivendo no Japão. Na Segunda Guerra Mundial o Japão governado pelo imperador Hirohito (que governou entre 1926 e 1989) subjugou o povo coreano até o fim da Guerra. A guerra terminou após a invasão dos países Aliados (EUA, União Soviética e Reino Unido).

O Japão de Hirohito se uniu à Itália fascista de Benito Mussolini e à Alemanha nazista de Hitler.

A Coreia do Norte foi fundada em 1948: até então se falava apenas em “Coreia” e o Norte era referido apenas como “o norte”.

Os países Aliados ganharam a guerra e os EUA ocuparam o Japão até a década de 1950.

A segunda guerra mundial se apoiou em narrativas de supostas superioridades étnicas: na Alemanha o povo “ariano” seria supostamente superior aos demais, o povo japonês seria supostamente superior ao coreano (e por isso supostamente poderia levar evolução a esse povo que era considerado pouco civilizado) etc. Seguindo o exemplo, em 1935 Benito Mussolini (ditador fascista italiano) invadiu a Etiópia com o objetivo de colonizá-la.

O livro Pachinko pode ser comparado com quais outros?

Hoje a Coreia do Sul é um país desenvolvido após anos de desigualdade e guerra. Nesse sentido, Pachinko me lembra Os Miseráveis do francês Victor Hugo, que mostra o passado pobre de um país hoje conhecido como país rico.

Além disso, o estilo da narrativa transgeracional (várias gerações de uma mesma família) lembra o que Tolstói fez muito e lembra um pouco também Cem Anos de Solidão de Gabriel García Marquez.

O racismo contra coreanos em Pachinko

A discriminação e o racismo de japoneses contra coreanos retratado em Pachinko é diferente do racismo conta negros (cujo debate estamos mais acostumados no Brasil). Pela fisionomia pode ser impossível para um japonês saber se uma pessoa é coreana ou japonesa. A discriminação vem da crença imaginária de superioridade não baseada na aparência, mas na ancestralidade. No Japão, o direito a nacionalidade janponesa não se dá por local de nascimento, mas por origem (se pelo menos um dos pais é japonês). Isso é chamado de “direito de sangue” ou “jus sanguinis“.

O que eu achei sobre o livro Pachinko:

Decidi ler Pachinko para ter uma imersão na cultura coreana. Porém a autora de Pachinko, Min Jin Lee, foi morar em New York aos sete anos e é cristã. Acredito que o sucesso ocidental da trama é explicado por essa forte perspectiva ocidental da autora. Nesse romance, todos os personagens coreanos e cristãos são boas pessoas (trabalhadoras e honestas), enquanto a maioria dos japoneses demonstra uma atitude de superioridade e racismo contra os coreanos.

A leitura de Pachinko flui como uma novelinha que percorre a vida de várias gerações e personagens agregados a uma família de coreanos que é forçada a migrar para o Japão. É uma leitura leve e agradável e uma boa introdução à cultura coreana e japonesa para quem não tem tanta bagagem em leituras que narram histórias ambientadas em países asiáticos. As mais de 600 páginas e cerca de 122 mil palavras (no original em inglês) são lidas com leveza ao longo dos dias ou semanas. Além de funcionar bem como entretenimento, me trouxe vários conhecimentos culturais e históricos que eu não tinha.

Pachinko é um livro poderoso porque une leitura fácil, acessível, de entretenimento com reflexões importantes sobre racismo, dominação, colonização, guerra, desigualdade e valores como honra e família.

Muitas questões são abordadas nas páginas desse livro que pode ser lido até por leitores que não têm o hábito da leitura (indepententemente do tamanho do livro, pois é uma leitura que flui com facilidade).

Pachinko é um daqueles livros que eu recomendaria a todos os tipos de leitores a partir dos 16 anos.

Quem também recomenda a leitura de Pachinko: Barack Obama

O ex-presidente dos EUA, Barack Obama, incluiu Pachinko em sua lista de indicações de leituras para o verão em 2019, dois anos após o lançamento do livro.

Barack Obama recomendou em 2019 a leitura do livro Pachinko (de 2017)

Curiosidades culturais, geográficas e religiosas da Coreia e do Japão

Até as décadas de 1970 e 1980 as residências não costumava ter chuveiro ou banheiros, de modo que as pessoas iam a casas de banho para tomar banhos. As casas eram aquecidas com Ondol, que é um sistema coreano de aquecimento dos pisos. As medidas das casas eram feitas em tatames (em vez de falar em metros quadrados, como fazemos). Seis tatames são seis metros quadrados, por exemplo.

Onsen: águas termais japonesas.

Mindan: União de Residentes Coreanos no Japão é uma organização fundada em 1946 que representa os coreanos que vivem no Japão. Além da Mindan, A Chongryon é a segunda organização de residentes coreanos no Japão atrás do grupo Mindan.

A moeda na Coreia é o iene, cuja fração é o sen.

O alfabeto coreano, chamado hangul, foi criado por Sejong, o Grande, que foi um rei da Coreia da dinastia Joseon emtre 1418 e 1450.
O alfabeto coreano, chamado hangul, foi criado por Sejong, o Grande, que foi um rei da Coreia da dinastia Joseon emtre 1418 e 1450.
Kansai: região do Japão localizada no centro-sul de Honshu.
Kansai: região do Japão localizada no centro-sul de Honshu.
Jeju: cidade e ilha da Coreia do Sul, localizada ao sul do restante do país.
Jeju: cidade e ilha da Coreia do Sul, localizada ao sul do restante do país.
Mapa destacando a Manchúria
Mapa destacando a Manchúria

Enclave: termo da geografia política que designa território que pertence a um país, mas encravado em um país diferente.

Os burakumin e o sistema de casta no Japão: no Japão feudal a sociedade era dividida em 4 castas. Os burakumim estavam fora dessa classificação em castas e sofriam estigma social devido a preceitos xintoístas e budistas de pureza, associados a trabalhos com sangue, morte ou de limpeza (como açougueiros, curtidores de couro e coveiros).

Tsumei: nome de uso cotidiano no estilo japonês adotado por coreanos que vivem no Japão para facilitar a convivência social e evitar o preconceito.

Xintoísmo: religiosidade nativa e tradicional do Japão.

Xogunato: o Xogum era o comandante supremo do exército que governava durante a ditadura militar do Japão. Esse período durou do século XII ao século XIX.

Pyongyang: capital e maior cidade da Coreia do Norte. É citada em Pachinko – a histórica começa antes da divisão em Coreia do Norte e Sul.

Osaka – Cidade japonesa

Ikaino – foi um antigo distrito de Osaka onde habitavam coreanos, que na época eram marginalizados no Japão.

Yokohama: segunda maior cidade do Japão.

Yukata: quimono de verão.

Roppongi: distrito de Tóquio conhecido pela vida noturna.

Chima e Jeogori (vestimenta típica coreana) na capa da edição em espanhol.
Chima e Jeogori (vestimenta típica coreana) na capa da edição em espanhol.

Noonchi: palavra coreana que significa a habilidade de perceber o não-dito, como pensamentos e sentimentos, tensões e hierarquias em um grupo.

Yakuza: organização criminosa japonesa que existe desde o século XVII (mais de 400 anos) com auge na década de 1960. Hoje a organização ainda existe, mas perdeu força e os seus membros são mais velhos.

Shotengai: galerias tradicionais japonesas.

A culinária coreana e japonesa citada em Pachinko:

Close-up of traditional Korean kimchi in a dark ceramic bowl with tongs.
Kimchi: vegetais colocados em salmoura durante vários dias e temperados. É muitas vezes considerado a base da alimentação dos coreanos.
Zaru Soba: macarrão servido gelado.
Zaru Soba: macarrão servido gelado.
Close-up of stir-fried udon noodles with vegetables on a white plate against a dark background. Udon: macarrão grosso.
Udon: macarrão grosso.
Pajeon: fritada coreana
Pajeon: fritada coreana

Outros livros que podem interessar brasileiros sobre a cultura japonesa:

Nihonjin Oscar Nakasato
Ojiichan Oscar Nakasato

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